Toda Copa do Mundo tem um apito inicial que não aparece na súmula, mas é sentido por torcedores de todas as idades: o dia em que o álbum de figurinhas chega às bancas. Antes mesmo de a bola rolar, começam as trocas, a contagem dos cromos faltantes, a caça às figurinhas raras e a disputa silenciosa e muitas vezes caríssima, para completar páginas que misturam jogadores, escudos, estádios, mascotes e símbolos do torneio.
Mais do que um passatempo, o álbum da Copa virou um ritual esportivo. Para muita gente, a competição começa quando a primeira figurinha é colada. E embora hoje ele seja quase sinônimo de Panini, a história dessa tradição é mais longa, com raízes anteriores ao formato que se consolidou mundialmente a partir de 1970.
A ORIGEM DAS FIGURINHAS DA COPA
No Brasil, há registros de álbuns ligados à Copa do Mundo já em 1950, ano em que o país sediou o Mundial pela primeira vez. De acordo com levantamentos históricos, um dos exemplos mais lembrados é o álbum “Balas Futebol – Craques do Campeonato Mundial de Futebol 1950”, vinculado à indústria de doces A Americana. Nesse modelo, a figurinha era parte de uma ação promocional: comprava-se o produto e recebia-se um cromo relacionado ao torneio.
A lógica ainda não era a da grande coleção global que conhecemos hoje, mas a essência já estava ali. Havia expectativa, troca, busca pela figurinha faltante e, principalmente, a aproximação entre torcedor e Copa por meio da coleção. Esse dado é importante porque mostra que o Brasil teve experiências com álbuns de Copa antes da consolidação internacional da Panini.
MÉXICO 1970 E O MARCO PANINI
Se a origem brasileira remete a 1950, o marco oficial da tradição mundial dos álbuns da Copa está em 1970, no México. Foi naquela edição que a Panini lançou seu primeiro álbum oficialmente licenciado da Copa do Mundo FIFA. A empresa italiana, fundada em 1961, já atuava com figurinhas e colecionáveis, mas foi ali que encontrou a fórmula que mudaria sua história.
O álbum de México 70 não foi apenas mais um produto editorial. Ele inaugurou um padrão: uma coleção estruturada, com identidade própria, jogadores das seleções participantes e distribuição pensada para alcançar escala internacional. A edição também ganhou aura histórica por coincidir com uma das Copas mais celebradas de todos os tempos, vencida pelo Brasil de Pelé, Jairzinho, Tostão, Rivellino e Carlos Alberto Torres.
Desde então, a Panini se consolidou como sinônimo de álbum da Copa. Não foi a primeira empresa a trabalhar com colecionáveis esportivos, mas foi a que transformou o produto em tradição global, repetida de quatro em quatro anos.
A EVOLUÇÃO AO LONGO DAS DÉCADAS
A cada nova Copa, o álbum ganhou tamanho, sofisticação e importância cultural. Nos primeiros anos, o formato era mais simples, com retratos de jogadores, escudos e informações básicas. Com o tempo, passou a incorporar estádios, cidades-sede, mascotes, emblemas, seleções históricas e recursos gráficos mais elaborados.
Na Copa de 1974, surgiram figurinhas prateadas e escudos; em 1978, houve maior organização numérica e mais atenção ao torneio como um todo; em 1982, apareceram capa plástica e cromos dourados. Nas décadas seguintes, os efeitos especiais se multiplicaram, com figurinhas brilhantes, holográficas e versões com acabamento diferenciado.
A mudança não foi apenas estética. O álbum também acompanhou a transformação do futebol em produto global. À medida que a Copa passou a ser mais televisionada, comercial e internacional, o álbum deixou de ser um simples conjunto de retratos e passou a funcionar como um documento visual do torneio. Nos anos 2000, a experiência ganhou camada digital, com álbuns virtuais, aplicativos de controle de repetidas e faltantes e produtos premium.
Há ainda um detalhe essencial: o álbum é sempre uma fotografia antecipada da Copa. Ele precisa ser produzido antes da definição final das seleções, o que significa que algumas figurinhas podem representar jogadores que depois são cortados, lesionados ou nem chegam ao Mundial.
A COPA DE 2026
O álbum mais recente é o da Copa do Mundo FIFA de 2026, que será disputada nos Estados Unidos, no México e no Canadá. A edição marca uma mudança histórica: será a primeira Copa com 48 seleções, e isso impacta diretamente o tamanho da coleção.
Segundo informações divulgadas pela Panini e pela imprensa especializada, o álbum de 2026 tem 980 figurinhas, sendo 68 especiais. No Brasil, cada envelope traz 7 figurinhas, com preço de R$ 7. O álbum aparece em diferentes versões, incluindo brochura, capa dura e edições especiais.
Na conta mais simples, seriam necessários 140 pacotes para completar 980 figurinhas, o que daria um custo mínimo teórico de R$ 980 apenas em envelopes. Somando o álbum brochura, o piso sobe para cerca de R$ 1.004,90. Mas essa conta é quase impossível na prática, porque pressupõe ausência total de repetidas, algo que não acontece no mundo real.
Cálculos probabilísticos divulgados por pesquisadores indicam que completar o álbum sem trocas pode exigir em média cerca de 6.750 figurinhas, o equivalente a aproximadamente 964 pacotinhos. Nesse cenário, o custo pode chegar perto de R$ 6.748 apenas em figurinhas, e até superar R$ 7 mil, dependendo da estratégia de compra.
Ou seja: trocar figurinhas não é só tradição, é necessidade econômica.
CURIOSIDADES DO COLECIONISMO
O Brasil sempre teve peso relevante nesse mercado. Pesquisas e reportagens apontam o país como um dos maiores consumidores de figurinhas da Copa, com mercado forte tanto entre crianças quanto entre adultos colecionadores.
Outra curiosidade está no mercado secundário. Algumas figurinhas antigas alcançam valores impressionantes em leilões, sobretudo quando têm raridade, bom estado de conservação e relevância histórica. Há casos de cromos de jogadores lendários que se tornaram itens de coleção altamente valorizados.
Também chama atenção o fato de que o álbum quase nunca é totalmente fiel ao elenco final da Copa. Como precisa ser impresso com antecedência, ele trabalha com projeções de convocação. Isso explica por que alguns jogadores aparecem mesmo sem disputar o torneio, enquanto outros, depois de brilharem no Mundial, ficam de fora da coleção.
A NOVA DETENTORA DOS DIREITOS
Aqui entra uma mudança importante no horizonte da tradição. A Panini continua responsável pelo álbum da Copa de 2026 e ainda seguirá à frente da competição de 2030, mas a FIFA já anunciou que a parceria será encerrada depois disso. A partir de 2031, os direitos dos álbuns e figurinhas oficiais da entidade passarão para a Fanatics, por meio da marca Topps.
Na prática, isso significa que a era Panini ainda não acabou, mas já tem data para terminar. É uma mudança simbólica e relevante, porque encerra uma associação de mais de meio século entre a marca italiana e a Copa do Mundo.
A EMOÇÃO DO PACOTINHO
Os álbuns de figurinhas da Copa do Mundo nasceram de forma dupla: no Brasil, aparecem ligados ao Mundial de 1950; no cenário oficial e global, ganham forma definitiva com a Panini em 1970, no México. Desde então, se transformaram em parte inseparável da cultura do futebol.
A cada edição, o álbum registra jogadores, escudos, seleções e símbolos de uma época. Mas seu valor vai muito além das páginas coladas. Ele está nas trocas, nas conversas, nas lembranças de infância e na expectativa coletiva que antecede o Mundial.
No fim, completar o álbum nunca foi só preencher espaços vazios. É participar de um ritual que transforma a espera pela Copa em experiência compartilhada. Antes de a bola rolar, a Copa já começa ali… no som do pacotinho sendo aberto.

